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Que "independência" celebrar?

Por Antônio Paulo P. França


O que há por comemorar após dois séculos de opressão e uma independência restrita a poucos? Neste dia de celebração cívica, me coloco ao lado dos "não civilizados", dos "excluídos", e utilizando as palavras de Oswald de Andrade convido a você para uma reflexão sobre o quão "pátria amada" tem sido o estado brasileiro.

No texto, intitulado "Manifesto Antropofágico", o autor, cem anos após a independência proclamada às margens do Ypiranga e em ocasião da Semana da Arte Moderna de 1922, levanta questionamentos sobre a identidade brasileira. O ser antropofágico que somos, segundo o autor, consome a cultura do outro - daí a analogia - em detrimento a suas próprias raízes. Isso não foi escolha na maioria absoluta das vezes... essa prática, na verdade, foi ideologicamente imposta pelo estado brasileiro desde sua gênese. É preciso hoje descolonizarmos o olhar, caminhando para um futuro que seja ancestral!


Segue a adaptação do texto para sua reflexão.


Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. Antes fosse o indígena despir o português!

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa. Contra todos os importadores de consciência enlatada!

Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.


Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju


A magia e a vida. Já tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Contra as histórias do homem que começam pela península ibérica! O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão! Sem César! A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade no matriarcado de Pindorama.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: - Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino!


Adaptação do "Manifesto Antropofágico" de Oswald de Andrade, lido pela primeira vez em 1922, relido hoje, dia em que se comemora a suposta independência do Brasil, em 2023, nas terras do Managea, território indígena dos povos Jê, Pindorama.


"Grito dos Excluídos" CNBB (2022)

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