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Salve o Verdadeiro Santuário

Atualizado: 21 de fev.


Desde o século XVII a igreja de Nossa Senhora das Neves é um ponto branco contra o infinito azul do mar do leste e o ondulante verde das montanhas do oeste (SECULT, 2009), marcando de modo pitoresco as planícies alagadiças do Itabapoana próximo a sua foz.


Território de populações indígenas Macro-Jê, genericamente denominados "Botocudos" pelos colonos portugueses e "Tapuias" ou "Aimorés" pelos Tupis (Ehrenreich, 2014), a região foi concedida pela Coroa Portuguesa à Companhia de Jesus, os Jesuítas, em princípios do século XVII, sem qualquer anuência das populações ali existentes, passando a ser denominada pelos mesmos por Fazenda Muribeca, delimitada pelas fozes do Itapemirim, ao norte, e do Paraíba do Sul, ao sul, tendo como coração o Itabapoana, ainda conhecido por aqueles indígenas por Managea, rio importante para que os padres adentrassem no território em busca de novas "almas para Deus" e a feitura de aldeamentos, concretizando um na margem norte do Itabapoana, sob a denominação de São Pedro Apóstolo, próximo a foz do rio Muqui do Sul (BARROS, 2018; SOFFIATI, 2018).

Voltando ao presente, visitar o Santuário é como ver o tempo imobilizado, uma condição apenas alterada a cada dia cinco de agosto quando, para dar e pedir graças, homens, mulheres e crianças se encontram para orar e festejar o dia de Nossa Senhora das Neves. Evento sem fronteiras, a festa atrai devotos de diferentes localidades do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. São milhares. Mas, é preciso vontade. A igreja, sinal de práticas centenárias, isolada e distante, exige corpo e espírito esperançosos para nela chegar (SECULT, 2009).

Composta por pedras de arrecifes argamassados com cal a igreja apresenta as rústicas características comuns às construções jesuíticas do período colonial (SECULT, 2009), mas que de modo surpreendente resiste incólume a mais de três séculos de intempéries, sob ação do vento litorâneos e das chuvas tropicais, além da constante visitação, intensificada sempre nos meses de agosto de cada ano.

Hoje, tombado pela Secretaria Estadual de Cultura, via resolução de n° 2/2009 do Conselho Estadual de Cultura e inscrito no Livro de Tombo Histórico sob o n° 193, folhas 31v e 32 (IPHAN/ES), o santuário encontra-se ameaçado pela eminente construção do Porto Central. Se sua paisagem bucólica vê-se alterada apenas nas proximidades da Festa de Nossa Senhora das Neves, com o Porto esse cenário irá alterar-se profundamente, colocando em risco sua própria existência e práticas culturais ali vivenciadas.


Com obras previstas para avançar continente a dentro, o porto, sitiará o templo em meio a intensas atividades industriais, de geração de energia e portuárias. O pesado fluxo rodoviário e naval, além das escavações para entrada dos navios prejudicará sua secular estrutura de maneira irreparável. Mas, o pior dano é o imaterial... não se toca, mas se vive. Afinal, como manter as tradições seculares em torno da devoção ao santuário de Nossa Senhora das Neves com seus festejos, cerimônias litúrgicas e peregrinações, em meio a um porto que como prática tem a dominação e expropriação dos territórios circunvizinhos, funcionando como um enclave ultramarino dos interesses do mercado? Qual soará mais forte, o sino ou a sirene dos navios? Os cantos ou o tráfego intenso de caminhões?


Salve o verdadeiro santuário

na memória

no trabalho

na luta 

na vida e no olhar

sempre teremos um paraíso a contemplar. 

Salve o verdadeiro santuário

Das neves

Dos povos

Da restinga

Do mar

Dos pescadores

Dos alagados

Das crianças

Do brincar


Nós aqui seguiremos ao lado

inclusive no sofrimento

do verdadeiro santuário.



Artigo e poesia: Antônio Paulo P. da França



Assista o trailer do documentário "Antes que o Porto Venha" a estreiar no YouTube no próximo dia 02/03



Saiba mais e se inscreva para exibir o documentário em sua comunidade, escola ou instituição através do link: https://www.reditabapoana.org/antes-que-o-porto-venha


Fontes:


BARROS, José Luís. FARIA, João Odílio Guedes. Trevo da Sorte Mimoso do Sul. Mimoso do Sul/ES, 2018.


Espírito Santo (Estado). Secretaria de Estado da Cultura. Conselho Estadual de Cultura. Arquitetura - Patrimônio Cultural do Espírito Santo (p. 157 a 165). Vitória/ES: SECULT, 2009. Disponível em: Link. Acesso em: 20 de fev de 2024.


Ehrenreich, Paul. Tradução de Sara Baldus; organização e notas por Julio Bentivoglio. Índios Botocudos do Espírito Santo no século XIX. Vitória/ES: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2014. Disponível em: Link. Acesso em: 20 de fev de 2024.


SOFFIATI, Arthur. Noroeste Fluminense: registros de um eco-historiador militante. Rio de Janeiro: Autografia, 2018.

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